Pesquisa social ou pesquisa científica?

Pesquisa social ou pesquisa científica?

Uma das grandes dificuldades encontradas em feiras de ciências hoje em dia é a diferenciação entre projetos científicos e projetos sociais. Não é incomum encontrarmos, até mesmo nas maiores feiras de ciências do país, projetos cujo objetivo principal consistia na implementação de um programa, ou até mesmo na transformação do comportamento dos alunos de uma determinada escola ou comunidade. O que muitas vezes impede que esses projetos se figurem enquanto projetos científicos nesses eventos é a dificuldade dos estudantes de mostrarem o potencial de replicação do experimento que eles fizeram.

Vou utilizar um exemplo simples: em meus tempos de feira de ciências, utilizei uma metodologia de educação nutricional em uma escola, e fui capaz de provar uma mudança significativa no comportamento alimentar dos participantes ao longo do tempo. Apesar de eu ter conseguido impactar a realidade dos estudantes daquela escola pública, e trazer ali uma abordagem de educação à qual os alunos não estavam acostumados, o meu projeto só deixava de ser um projeto social para ser um projeto científico se eu conseguisse, de alguma forma, mostrar, ou ao menos sugerir, que a metodologia que eu apliquei naquele mesmo ambiente poderia ser replicada e alcançar resultados similares se aplicada em outros lugares. O meu projeto, portanto, consistia, não na pura implementação de uma metodologia de educação nutricional em uma escola pública no Nordeste, mas no desenvolvimento de uma nova metodologia de intervenção que, se analisada cuidadosamente, poderia ser transportada para muitos outros contextos escolares.

Se você é aluno de ciências humanas e sociais, e o seu projeto de pesquisa consiste na criação de um programa de educação ambiental na sua escola, isso é incrível! Mas é preciso saber que seu trabalho pode ficar ainda mais forte se você for capaz de responder a duas perguntas:

  1. Como esse programa impactou os alunos que participaram dele?
  2. Quais as condições necessárias para que esse programa fosse aplicado em outros contextos escolares?

Às vezes os ambientes que estudamos são tão específicos que não é possível mostrar como aquele mesmo experimento pode ser utilizado em outros contextos. Isso não é um problema! Pesquisadores costumam chamar isso de estudo de caso. Esse tipo de estudo é extremamente importante, e tem um importante valor científico nas ciências sociais. Se esse for o caso do seu projeto, talvez seja interessante se perguntar: O que é tão especial em relação a esse contexto? Que outras investigações podem ser feitas a partir do estudo que eu fiz? Assim, você consegue mostrar que apesar de a sua pesquisa não ser necessariamente replicável, ela abre espaço para outras discussões e investigações na sua área.

Para finalizar, é importante lembrar que apesar dos exemplos acima tratarem de programas e metodologias, projetos científicos nem sempre tem “produtos” concretos, especialmente nas ciências sociais, e isso não é um problema! Pesquisas etnográficas ou de cunho qualitativo são igualmente válidas, e apesar de não muito comuns nas feiras de ciência, são sim resultado de um processo científico de investigação e análise.