O incentivo que motiva e encanta

O incentivo que motiva e encanta

Eu sempre fui tímido e quieto. Na realidade, tinha certa dificuldade em me expressar diante de pessoas que não conhecia. Ao falar sobre isso, sempre me recordo das inúmeras apresentações de turma, aquelas que já são de praxe no início do ano em qualquer colégio ou escola. Os momentos que antecediam minha apresentação eram os mais aterrorizantes da minha vida. Embora fosse bastante introvertido, ao me familiarizar com todos e com o ambiente, mudava repentinamente de figura e protagonizava meu verdadeiro eu, um daqueles palhaços que cada sala de aula tem.

A última das minhas apresentações de turma foi em 2012. Foi ali que tive a felicidade de conhecer meus futuros colegas de pesquisa. Tínhamos 13, no máximo 15 anos, e alguém enxergou em nós, como dizia uma de nossas orientadoras o “espirito investigativo”. Começamos nosso primeiro projeto levando em consideração aquilo que achávamos que era ciência. Sabe como é… aquelas coisas que vemos em feiras de ciências fictícias, vulcões de bicarbonato,  batatas e a eletricidade, robôs, tudo o que víamos nos filmes da sessão da tarde. Tirando o fato de termos esquecido de empregar o método cientifico e até mesmo termos pulado diversas etapas da produção, acabou sendo uma experiência exitosa.

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Nos anos seguintes, já conscientes do que significava realmente fazer ciência, nós tivemos a satisfação de sermos selecionados para a 28º MOSTRATEC. Éramos alunos de escola pública, do interior da Bahia e havíamos passado por tantas dificuldades que nem sonhávamos em participar de algo como a MOSTRATEC. Na realidade nem sabíamos o significado do evento! Fomos inscritos pela articuladora da feira escolar do nosso colégio. E para quem nunca havia participado de evento algum, para nós aquilo representava a oportunidade de mostrar todo o nosso trabalho.

Nos sentimos aliviados ao saber que a MOSTRATEC custearia 3 das 5 pessoas inscritas. No entanto, foi preciso trabalhar duro para que fosse possível levar o maior número de integrantes. Vendemos bilhetes, camisas, rifamos sapatos, som e tudo que conseguimos com o comércio. No fim, lá estávamos nós sem noção alguma do que tínhamos conquistado. Não sabíamos como apresentaríamos, afinal passamos cada minuto que antecedeu nossa viagem trabalhando para fazer tudo acontecer.

Lembro-me do dia em que subi a rampa para a FENAC, local onde a MOSTRATEC acontece todos os anos. Eu carregava as malas com dificuldade, confesso, todos passavam por nós e estranhamente nos cumprimentavam, como se já nos conhecêssemos. Ficamos maravilhados com tudo o que vimos e com a proporção do evento. Nos próximos dias, vivenciamos uma rotina de apresentação constante. Aos poucos íamos melhorando, afinal, éramos iniciantes naquilo. Nunca havíamos apresentado antes, e o pouco contato com eventos do gênero fez com que nossa apresentação fosse infantil e ao mesmo tempo atrativa para os ouvintes.

Se você é aluno de escola pública, sabe que as dificuldades existem a todo momento, e também sabe que desistir é sempre a opção mais próxima e inquestionavelmente viável. Estávamos na maior feira de ciências da américa latina, e isso era demais! Mas, sempre surgiam questionamentos do tipo: o que faremos depois daqui? Onde vamos chegar? Quais são nossas chances? Infelizmente não fazíamos ideia alguma do que fazer. Ainda achávamos que éramos “sortudos” e que logo voltaríamos à realidade. Mas as coisas não são bem assim.

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Nestas apresentações infantis (e talvez um pouco extensas), conhecemos uma infinidade de pessoas. Mas houve alguém que nos direcionou e fez com que pensássemos em nossa pesquisa e no rumo que as coisas deviam tomar. Essa pessoa nos mostrou que podíamos superar desafios para chegar ao mais belo voo. Esse momento de reflexão nos ajudou a enxergar novos horizontes para nossas vidas e para nosso projeto e nos forneceu, acima de tudo. Percebemos que nosso lugar era ali, e assim compreendemos o quanto éramos merecedores.

Na semana posterior à MOSTRATEC, nos enfiamos na biblioteca do colégio, tentando catalogar todas as dicas passadas (que eram muitas por sinal). Voltamos da MOSTRATEC de mãos vazias. Não ficamos em colocação alguma, nem ganhamos o prêmio destaque da ABRIC. Mas nossos corações estavam cheios, nossas mentes borbulhando de ideias e nosso Facebook cheio de mensagens de novos amigos que havíamos feito.

Continuamos passando por diversos apertos, a diferença é que a motivação fez com que os problemas fossem insignificantes frente à nossa determinação. Graças a Ana Clara Cassanti, pesquisadora e diretora da ABRIC, não desistimos do nosso sonho e seguimos adiante com nossa pesquisa. As consequências disso foram prêmios nacionais e internacionais. Tivemos a oportunidade de representar o Brasil no Chile, Paraguai, México, Austrália e Peru.

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Já se passaram 3 anos desde minha primeira feira de ciências. Atualmente trabalho em uma área totalmente desconexa a que concorri na MOSTRATEC; estudei durante três anos a etnia cigana da cidade onde vivo, e deixei minha marca, consegui me encontrar dentro da ciência, e atualmente realizo pesquisas na área de ciências da natureza e exatas. Não! Ainda não conclui o ensino médio. Para o futuro, planejo cursar engenharia de alimentos ou bioquímica.

Meu nome é Jean Rodrigues e minha cor favorita é verde. Hoje integro o corpo funcional da ABRIC como Coordenador Regional, e acredito no poder transformador da ciência e na importância do incentivo à pesquisa na escola. Minha história pode parecer só mais uma, mas foram histórias assim que me inspiraram a chegar até aqui.