A história que nenhuma medalha conta

A história que nenhuma medalha conta

Antes de mais nada, queria dizer que sou completamente a favor de prêmios – como alguém que já ganhou diversos deles, seria um pouco de hipocrisia fazer um longo sermão sobre o valor intrínseco da pesquisa. A verdade é que prêmios são bons porque conferem crédito ao nosso trabalho duro, e muitas vezes abrem portas incríveis para participarmos de feiras, conferências ou eventos. Quem não gosta de conhecer uma cidade nova e ainda voltar com o sentimento de que “está entre os melhores”?

Mas a verdade é que depois de participar de várias feiras como finalista e ter a oportunidade de voltar para algumas como avaliador, a gente percebe que a magia da premiação corre o perigo de contar a história errada. Esse texto é, não uma consolação para quem nunca foi premiado, mas um choque de realidade para quem sempre ganhou prêmios.

Minha primeira constatação depois de participar de tantas feiras de ciências é de que grandes projetos são mal compreendidos com mais frequência do que a gente imagina. Diversas vezes vi pessoas cujos projetos realmente representavam uma grande inovação na sua área de pesquisa saírem de feiras de ciências sem ganhar prêmio algum. Já vi diversos projetos melhores do que os meus não receberem prêmio algum em feiras de ciências enquanto eu era premiado. Isso acontece porque as avaliações dependem, não só da capacidade argumentativa de quem é avaliado para “vender seu peixe”, mas também de um sistema de avaliação que muitas vezes é limitado e, apesar de ter as melhores intenções, não é capaz de recrutar avaliadores que são especialistas na área de cada projeto.

Minha segunda constatação é de que não existe absolutamente nenhuma garantia de que alunos premiados em feiras de ciências serão melhores pesquisadores no futuro do que aqueles que não são premiados. Diversos grandes pesquisadores e líderes de hoje em dia nunca foram premiados em feiras de ciências. Isso porque eles utilizaram a experiência de errar para aprender a recomeçar e a nunca parar de tentar. E isso deveria servir, não de consolação para quem nunca ganhou um prêmio, mas de lição de humildade para quem acha que o palco de uma feira de ciências é o topo do mundo inteiro. Não importa qual seja o tamanho do seu relatório ou o peso da sua medalha. Você ainda é uma gota bem pequena, em um mundo de conhecimento muito maior do que você pode imaginar.

Mas a terceira constatação é que nossas medalhas em si levam a gente muito menos longe do que a gente imagina. Hoje, quase quatro anos depois de ter acabado o ensino médio, todas as minhas premiações em feiras de ciências são resumidas em uma pequena frase, jogada no final de uma frase no meu currículo, e que eu só coloquei porque ainda tinha espaço. Porque a verdade é que o mundo do trabalho está muito mais interessado na minha capacidade analítica e no pensamento crítico que eu ganhei com a minha pesquisa do que no número de prêmios que um sistema obscuro de avaliação, seis anos atrás, resolveu me dar. E isso é a realidade mais bela do mundo. Porque no fim do dia, o que importa não é que prêmio a gente ganhou e para onde a gente foi, mas o que a gente viveu, o que a gente aprendeu, e as conexões que a gente fez ao longo da estrada.